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2017

NÃO, EU NÃO SOU CAPOEIRA

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 Resposta a um estudante do ensino médio de uma escola pública sobre capoeira

Fui abordado por um aluno da escola pública onde trabalho, que me perguntou: Professor, o senhor é capoeira? Não lhe dei resposta no momento, apenas um sorriso. Aquela dúvida significou muito para mim, dediquei um tempo para pensar na pergunta dele e hoje creio que possa apresentar uma possível resposta a ele que esta em minha lista e a outros camaradas que compartilham de algumas ideias.

NÃO, EU NÃO SOU CAPOEIRA 

Não foi difícil chegar a essa conclusão, o tempo foi apenas para colocar em ordem algumas ideias que a tempo me perseguem. O caminho que usei foi o mesmo que uso quando me perguntam o que sou do ponto de vista profissional, ou seja, quando me perguntam o que sou, geralmente faço uma busca do geral para chegar a uma conclusão, exemplo, se me perguntam você é professor? eu penso no seguinte: o que no geral é essa profissão? o que no geral fazem nessa profissão? quanto no geral ganham esses profissionais? De que forma, no geral esse profissional e visto no trabalho e na sociedade? e então concluo? sim sou professor.

Quando fui questionado sobre ser capoeira, olhei o geral, o que mais predomina em minha terra, que segundo alguns e a mãe da capoeira, o que mais predomina nas cidades e estados do exterior que tive a oportunidade de conhecer, observei o perfil no geral do típico capoeira DE HOJE, observei a forma como O capoeira e visto na comunidade em geral, observei o que este pensa ser a capoeira, observei o que é destaque na capoeira em se tratando de eventos, de grupos e etc, observei também o que a Bahia em geral, a título de exemplo, escolheu e elegeu como OS CAPOEIRAS, OS CARAS, e neste exato momento tive informações suficientes para concluir, é meu pai, eu não sou capoeira.

Preciso agora de mais tempo para saber que porra eu sou. por que?

Porque jogo capoeira, geralmente com o outro que esta na roda comigo e não sozinho; porque ensino a jogar capoeira e não a fazer solo individual; porque não malho para ter mais de 100 kg para ter vantagem no jogo por peso; porque so jogo capoeira e não apelo para murro na cara ou agarramento; porque não vou nos lugares com meu exército de alunos; porque quando saio nas fotos com os camaradas estou sorrindo e não mostrando o tamanho do meu pescoço; porque canto pra dizer alguma coisa; porque minha música tem cadencia; porque minha calça não é dobrada na bainha, jogo capoeira, não to pescando; porque tenho uma escola e não uma gangue; porque improviso no jogo e não levo pro jogo um jogo ja pré-feito; porque não ensino por seqüência; porque não digo que sou regional nem digo que sou angola; porque não acho que branco e tradição; porque não acho que todo mundo deve me respeitar por ser mestre mesmo que eu tire onda com todo mundo; porque não jogo bonito e não tenho hang loose no dedo na hora do jogo; porque na minha roda quem manda é o berimbau e não o mestre mais mizeravão que chega; porque OS CARAS, OS CAPOEIRAS que ouço muita gente dizer que é isso e aquilo, para mim, para minha história na capoeira ou mesmo para o que eu acredito que venha a ser a capoeira não significam nada disso; porque malandragem pra mim é malandragem e não mal caratismo; porque não sou atleta sou capoeirista; porque não acho que capoeira é esporte; porque tomo cachaça; porque minha capoeira não e plastificada nem colocada na esteira da produção para ser vendida; porque pra ser bom mestre não preciso ser associado a dono de mega-grupo, provavelmente um bom administrador, ou ser associado a valentão que fez e aconteceu, lembrem-se a pólvora esta fazendo muitos anos de aniversário e hoje ao que me parece não se fabrica mais homem puta, atitude parece ser acessório de fabrica, aliás eu nem precisaria dizer isso, os próprios valentes da cidade ja tem suas marcas ou no corpo ou nós antecedentes criminais, me refiro aos vivos...rsrsrs..

Por fim concluo que, no geral do que vejo, tudo me parece coisa de uma capoeira que tem mais de colonizador do que de ânsia de liberdade e que hoje todo mundo chama de contemporaneidade, tem muito rastafraude e afro-burguês difundindo essa capoeira pelo mundo e dizendo na certeza, que ta defendendo a luta contra opressão burguesa, dos burgueses dos bairros privilegiados de Salvador  ou da nobreza carioca isso ja era de se esperar, mas da comunidade do gueto, isso é sem dúvida, ainda de se assustar.             

Joel Oliveira espero que possa ter respondido sua pergunta, sinto apenas que agora eu não saiba mais que porra eu sou...

Duda, alguém que pensava ser capoeira

Texto retirado do Facebook do Bloco de notas de Duda Carvalho.