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O MUNDO QUER ACABAR COM A CAPOEIRA?

O MUNDO QUER ACABAR COM A CAPOEIRA?

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“A CIA QUER ACABAR COM O SAMBA”?
E COM A CAPOEIRA?

Por Paulo R. dos S. Ribeiro(Mestre Tetê)

Tempos atrás ouvi uma declaração de Bete Carvalho, conhecida e reconhecida sambista brasileira que dizia: “A CIA QUER ACABAR COM O SAMBA”. Em outra oportunidade, numa das raras vezes que ligo a TV, assisti uma entrevista da mesma cantora no programa “Agora é Tarde” da rede Bandeirantes e tive a oportunidade de vê-la justificando sua declaração. Ela explicou (aqui com minhas palavras) que no mundo inteiro existe um esforço muito grande de empurrar as músicas estrangeiras(americanas) nos países, em detrimento às músicas tradicionais de cada nação nos meios de comunicação, sendo em média oitenta por cento de músicas americanas sendo tocadas nas rádios, televisão, internet e outros, contra vinte por cento das músicas regionais. Atualmente talvez este número tenha diminuído. Outro fato interessante nesta entrevista foi a sambista justificando que sua declaração se deu porque, segundo ela, “o samba que temos ouvimos hoje em dia não é samba, o sertanejo não é sertanejo, e por aí vai”. E que as portas para música brasileira só tenham sido abertas talvez devido justamente ás mudanças que nossa música têm sofrido. 
Ao assistir a entrevista fiz uma analogia e contextualizei as palavras da sambista para Capoeira, aproveitei também um comentário de um amigo que participou de um congresso, aqui no Brasil, da Body Sistem onde, segundo ele, foi enfatizado pelos ministrantes de tal evento, que havia a cobrança no mundo inteiro pela implantação de um sistema de aula com movimentos de Capoeira. Ainda segundo ele, a “Capoeira está com muita moral lá fora”. 
Bom, a partir do que descrevi acima irei fazer algumas colocações e gostaria que o leitor fizesse juntamente comigo uma análise crítica do que iremos tratar aqui:
Primeiro: Viajo há quase vinte anos com certa regularidade para fora do Brasil e realmente a Capoeira cresceu, se desenvolveu, ganhou status, posso até afirmar que exista, em alguns países(ex: Israel, Espanha), em proporção de tamanho, mais Capoeira do que em alguns estados e cidades brasileiras. Logo poderíamos dizer que “a Capoeira está realmente com moral lá fora sim”.
OBSERVAÇÂO: Em contrapartida, no princípio destas idas ao exterior observava rodas de Capoeira com muitos grupos distintos unidos, creio que com o crescimento e” autosuficiência” dos trabalhos, os grupos/escolas de Capoeira se distanciaram e cada um foi fazer seu trabalho isoladamente. Atualmente com esta nova (e melhor) mentalidade da maioria dos capoeiristas(amadurecimento) que entenderam que a disputa tem que ser travada(se é que se faz necessário travar alguma disputa) a nível profissional e não pessoal, percebemos esta reaproximação nas rodas e eventos, com boas trocas dentro do jogo acontecendo dentro da ética do toque do berimbau, com raras exceções. 

Segundo: Temos percebido várias vertentes na Capoeira, muitos “estilos” nos têm sido apresentados no decorrer destes anos, seria uma tentativa de que a Capoeira seja aceita neste ou aquele segmento da sociedade? Seria uma estratégia da Capoeira, ou dos capoeiristas, de serem aceitos onde outrora não se tinha acesso? Ou seria a descaracterização da nossa arte no que chamaria aqui de “Mercantilização do Patrimônio Cultural Brasileiro”? Por que as pessoas no “mundo inteiro” querem a ginástica da Capoeira através de um sistema mecânico de aula, mas não querem “ser capoeirista”? E aí a pergunta se faz necessária à nós capoeiristas: Como temos apresentado a Capoeira para o mundo? E porque sem têm optado pela ginástica da Capoeira e não pela Capoeira enquanto arte genuinamente brasileira? É claro, e aqui preciso deixar o registro, dos excelentes trabalhos desenvolvidos por inúmeros capoeiristas em diversos países. 
Terceiro: No que diz respeito ao Brasil, gostaria de ressaltar a desvalorização da Capoeira na forma como tem sido apresentada nos “Projetos Sociais” em todo país( fazendo ressalva as muitas exceções), a Capoeira deixou de ser “uma rica tradição da cultura brasileira”, que contribuiu na formação de milhares de pessoas, muitas dessas inclusive se tornaram bons profissionais e reconhecidos mestres dessa arte, para se tornar moeda de troca nas mãos de “educadores”, onde crianças e adolescentes são “obrigados” a participar das oficinas senão não ganham presença e, consequentemente, não recebem este ou aquele benefício, dependendo do programa social ao qual pertença. Tais educadores, muitos dos quais despreparados, têm realizado um desserviço à Capoeira, e em muitos casos, têm tirado do mercado antigos mestres, detentores do saber popular que estão sendo trocados por um diploma de EFI, pois vislumbraram na Capoeira um amplo e lucrativo mercado.Vou discorrer aqui de minha experiência pessoal nas poucas décadas que ministro aulas de Capoeira.
Quando criança praticar Capoeira era algo especial, levar o material de trabalho do mestre, fazer um favor ao mesmo era uma honra, um privilégio de poucos, a falta de respeito e a desvalorização da nossa arte, ao meu ver, tem se dado também porque, atualmente, e isso vem acontecendo há algum tempo, mais especificamente desde que a Capoeira se tornou oficina educativa/cultural na maioria dos projetos sociais implantados pelos governos(Federal, estadual e municipal) onde os participantes ganham tudo, uniformes, instrumentos, passagens, enfim. Nada contra ajudar e levar o acesso a cultura da Capoeira para quem não tem, fazemos isso há muitos anos, antes mesmo de existir tantos programas sociais, mas nosso questionamento aqui é a forma como isso tudo tem sido apresentado aos alunos, sendo utilizado, repito, como instrumento de troca, para barganha e não para o enriquecimento da prática e conhecimento e nossa arte..
Concluindo, entendemos que a Capoeira está aí para todos, que muitos fazem e prestam um ótimo serviço a nossa arte, outros porém tem contribuído para a desvalorização da Capoeira. Se temos a solução para tais questões? Talvez uma reflexão aos mestres e capoeiristas:
“Cada vez que você forma um monitor, graduado, instrutor ou professor sem que o mesmo esteja preparado tecnicamente, didaticamente e, principalmente, psicologicamente para ministrar a outros, você esta contribuindo para a degradação e extinção deste arte que amamos tanto”. 

Mestre Tetê.
(Centro Esportivo, Cultural e Social Capoeira/Escola)
www.youtube.com/tetecapoeira
paulordossribeiro@hotmail.com
Governador Valadares(MG)

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