Tucumã Brasil - Plataforma de difusão cultural

2017

Faces da mesma ”moeda” no jogo do capital com a capoeiragem

Leave a Comment
Por:
Jean Pangolin


        A reunião do CNE, realizada em 16 de fevereiro de 2016, na Escola Naval do Rio de Janeiro, formalizou a resolução de reconhecimento da capoeira como atividade esportiva, ratificando alguns dispositivos legais de décadas atrás, que já apontavam neste sentido, mas também, contrariando o entendimento de parte significativa da comunidade de capoeira, que percebe na desportivização o perigo de negação dos princípios ancestrais que sustentam o processo ritualístico da arte. Assim, tentaremos discorrer sobre o tema, refletindo criticamente sobre as nuances desta “nova/velha” investida do estado para controle das culturas populares em nosso país.

O mito da disputa entre Esporte e Cultura na Capoeira

        A referida decisão do CNE gerou um movimento contrario, mediado por uma bipolarização, que atestava, de todas as formas, o antagonismo entre as perspectivas de Esporte e Cultura, como se ambas as possibilidades não estivessem assentadas no mesmo modo de produção, que transforma tudo em “produto” subserviente ao “lucro” da classe dominante.
        Precisamos reconhecer que o Esporte e a Cultura, não são entidades autônomas e com vida própria, ou seja, dependerão sempre dos encaminhamentos ideológicos organizacionais para estruturarem suas praticas, sendo assim, a forma como cada sociedade pensa suas estruturas, nas relações do homem com o homem e do homem com a natureza das coisas, será determinante para os desdobramentos futuros, considerando a emancipação humana. Neste sentido, discutir a desportivização da capoeira, sem considerar a expressão histórica deste fenômeno no mundo capitalista, é pura ingenuidade e/ou mero exercício de retórica vazia por disputa de poder.
        Nossa verdadeira luta não é em favor do Esporte ou da Cultura, mas sim, pelo redimensionamento das relações humanas em sociedade que empoderam estas perspectivas, pois princípios como: competitividade, exclusão, consumo exacerbado, tecnicismo alienado, desvalorização do mais velho e outros, fazem parte do cotidiano da capoeira na atualidade, tanto na desportivização como enquanto pratica cultural.
        Chama-nos a atenção, atualmente, perceber que muitos daqueles, que hora se arvoram contra a decisão do CNE, em suas práticas cotidianas, em capoeira, reforçam os elementos mais danosos do Esporte no mundo capitalista, pois estimulam a performance, chamam seus praticantes de “atletas”, promovem competições individuais de alto rendimento, não tem balanço na ginga, não tem “dendê” no jogo, defendem o mestre patrão e ainda empoderam seus grupos como milícias de guerra.
        O histórico do cotidiano de nossa prática em capoeira pode revelar muito mais do que a organização retórica de nosso discurso, pois define quem somos verdadeiramente, considerando a dimensão de nossa má fé por disputa de poder ou, o quão alienados podemos estar, diante dos ditames do mundo do capital.

Estado, controle e negocio na capoeira

        A capoeira atualmente esta presente em mais de 150 paises, movimentando um grande “mercado” lucrativo e com milhões de praticantes espalhados no Brasil e no mundo, fato que tem despertado interesse de diversos setores sociais, dentre estes, destacaremos a participação do estado brasileiro, focando prioritariamente as ultimas duas décadas. Neste sentido, discorreremos abaixo propondo algumas reflexões sobre o tema.
        Para muitos, a principal ingerência do estado, na Capoeira, nos últimos anos esta diretamente relacionada a uma resposta dos setores que gerenciam a cultura, frente os constantes ataques do sistema CREF/CONFEF, que tentou incluir diversas praticas culturais no grupo de atividades fiscalizadas pelo mesmo, por garantia de reserva de mercado para um determinado coletivo de profissionais, ou seja, acreditava-se que o referido sistema traria conseqüências danosas para a comunidade, pelo perfil de perspectiva voltada a uma lógica de atividade física mais desportivizada, sendo a defesa dos aspectos culturais da arte, uma saída para fugir da tutela jurídica imposta naquele momento.
        Dentre as diversas estratégias para fugir da tutela do sistema CREF/CONFEF, para além da mobilização de representantes da comunidade, tivemos a resposta do estado, em 2008, com o ofício dos mestres de Capoeira, inscrito no livro de registro dos saberes, possibilitando uma serie de iniciativas que valorizavam a cultura. Neste sentido, em 2014, tivemos o reconhecimento da “Roda de Capoeira” como patrimônio da humanidade, fato que se configurou como importantíssimo para assegurar a política de salvaguarda nacional, ainda que não existisse perigo eminente de extinção da capoeiragem, pois a mesma estava em franco processo de expansão mundial.
         Apesar de percebermos avanços em políticas publicas para Capoeira, acreditamos que estas, ora na perspectiva do Esporte de rendimento, ora na perspectiva da Cultura, representam a ingerência do estado em deliberações que deveriam ter centralidade na figura dos antigos mestres e suas necessidades, considerando o principio da ancestralidade e a função “griot” destes indivíduos.
        Cabe aqui também a reflexão de que as diversas ingerências alheias à comunidade de Capoeira, são a denuncia de um possível despreparo político-ideológico-organizacional da mesma, pois “todos”, ainda que nunca tenham dado um aú, se acham no direito de ditar as regras e procedimentos para a arte, configurando a máxima do ditado “em terra de cego, quem tem olho é rei”. Desta forma, salvo melhor juízo, acreditamos que a ausência de uma representatividade oriunda dos asseios da própria comunidade, bem como a falta de acesso a processos formativos que instrumentalizem os capoeiras para o “jogo” com o sistema, configuram-se como principais fatores que denotam a fragilidade dos representantes das culturas populares neste processo.

Considerações finais provisórias

        O chamamento deste texto pode ser comparado ao dito popular “em arvore sem fruto, ninguém joga pedra”, ou seja, aquilo que não gera lucro para a lógica capitalista, não desperta interesse do sistema, considerando aqui a possível ampliação da arrecadação de impostos pelo estado com o mapeamento das instituições e seus praticantes e/ou o interesse pela desportivização na industria do espetáculo olímpico.
        Para alem de bem ou mal, existe a necessidade reflexiva ampliada sobre a conjuntura da totalidade concreta que vivemos, e nesta, o cuidado com os “urubus políticos”, principalmente os infiltrados junto à comunidade como “lobos em pele de cordeiro”, pois estes têm sistematicamente se aproveitados da falta de informação e/ou ingenuidade intelectual dos “verdadeiros” capoeiras para empoderarem seus projetos particulares de poder.

CUIDADO.....QUEM È DE GRUPO, NÂO CAI EM “GRUPO”!!!!!!