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2017

FICA X Redbull Paranauê 2017

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FICA-SP com apoio do  Mestre Cobra mansa : NOTA DE POSICIONAMENTO
Red Bull Paranauê

Bom dia, boa tarde e boa noite, membros da FICA pelo Mundo.
Com respeitos, pedindo licença para os Mestres, Contra Mestres, Treineis e Líderes da FICA.
Nós, representantes da FICA, núcleo São Paulo, estamos aqui hoje para suscitar uma discussão.
Como pessoas que estão iniciando agora no mundo da Capoeira Angola, queremos, respeitosamente, colocar uma questão, mostrar nosso posicionamento enquanto núcleo, buscar orientação e tentar saber da opinião das lideranças dos demais grupos, além dos mestres, CM e treineis desta Fundação.
Teremos neste mês, o Evento Red Bull Paranauê, que, segundo seu regulamento, escolherá o Capoeirista mais completo do mundo.
Para isso, serão avaliados, por mestres, jogando os estilos Angola, Regional e Contemporânea (2 estilos para cada competidor, que serão sorteados).
E, os mestres que participarão, serão grandes personalidades como Jair Moura, Itapoá, Jogo de Dentro, Nenel e João Grande.
A nota que estamos escrevendo, não tem objetivo de criticar o evento, nem a ação dos mestres ou organizador. Mas sim, teceremos opiniões e pequenas provocações ao pensar, para, pelo menos, termos a oportunidade de analisar e nos posicionarmos, enquanto lideranças.
Assim como os treineis e alunos mais novos poderem conhecer o posicionamento dos mais antigos nesta Fundação, que já passaram por diversas construções, auxiliando colocar o nome da Capoeira Angola onde está.
As vezes, existe a necessidade de nós, mais novos, termos este direcionamento e, estes acontecimentos são oportunidades disso acontecer. Conhecermos o posicionamento e desejos dos nossos líderes.
Não acredito que o organizador, grande nome da capoeira, reconhecido pela comunidade, com apoio institucional e oportunidade de correr atrás e realizar um sonho ou uma vontade que já tinha, deva ser julgado ou avaliado.
Mas podemos dar uma olhada mais aprofundada na questão da escolha do Capoeirista mais completo, que é o foco deste evento.
O Regulamento diz que ambos participantes e praticantes de Capoeira dos Estilos Angola, Regional e Contemporânea poderão participar.
Cada participante fará 2 jogos de 40 segundos cada, em 2 dos 3 estilos, sendo estes sorteados para cada participante (Angola, Regional ou Contemporânea).
Os toques serão Angola – Estilo Angola; São Bento Grande da Regional – Estilo Contemporânea e; Iuna – no estilo Regional.
Sendo que é explicado que no toque de Iuna, jogam apenas mestres e, os alunos deveriam pedir autorização para os mestres para jogarem e, que nesse toque tradicional, por exemplo, espera-se que, como na Capoeira Regional, que realizem balões e cintura desprezada, como era tradicional na Capoeira do m Bimba.
M Jogo de Dentro e m Lua Rasta avaliarão os que forem sorteados a jogar angola, m Itapoã e m Nenel avaliarão os que jogarem Regional.
M João Grande e Jair Moura serão convidados de Honra (não se diz que eles julgarão. Apenas estarão enquanto convidados especiais).
* Está vetada a participação de mestres.
Então vejamos, de forma bem simples, algumas questões provocadoras do pensamento:
- Como se define o capoeirista mais completo do mundo?
- Todos os capoeiristas, de todos os estilos podem participar, mas o capoeirista mais completo é aquele que for julgado como o melhor “jogador”, pelos julgadores, nos dois estilos que jogar.
Sendo assim, um “angoleiro” terá que jogar em 2 estilos e, ser avaliado, por exemplo, jogando “regional” e “contemporânea” (se forem os estilos para ele sorteados)? A mesma coisa acontecerá com um praticante da Regional de Bimba, sendo sorteado para jogar 40 segundos de “angola” e 40 segundos de “contemporânea”?
- Em 40 segundos, é possível avaliar o capoeirista mais completo do mundo? E/ou o jogador mais completo do mundo?
- Mestres estão vetados de participar. Será que o Capoeirista mais completo do mundo, pode ser mais completo que um mestre de Capoeira? Destes com grande projeção, conhecimento e reconhecimento em suas comunidades?
- O capoeirista mais completo do mundo será avaliado em dois jogos de capoeira, de 40 segundos cada. Neste tempo, conseguiríamos avaliar todas as questões subjetivas que transformam um jogador de capoeira em um capoeirista completo?
- É possível elencar todas as questões subjetivas e também as concretas, que formam um capoeirista, da forma mais completa possível?
- Existe, a partir das experiências adquiridas; Entendimento próprio; Valores próprios de vida; Ensinamentos; Forma com que se transforma o que se aprende ao que se ensina; Cuidado com os alunos; Capacidade de ensinar; cuidado com a tradição e fundamentos (entre outros diversos aspectos)... Uma forma de avaliar o capoeirista mais completo? E comparar este com outro capoeirista totalmente diferente? É possível?
- Existe a possibilidade de, com apoio direto ou indireto dos mestres dos estilos mais tradicionais, os alunos destes e de seus estilos, começarem a se sentir encorajados a participar deste tipo de competição? Como estes mestres agiriam com seus alunos que fizessem esta escolha?
- Se praticantes dos estilos mais tradicionais (Angola e Regional) resolvessem participar destas competições, estes passariam a ter que treinar os demais estilos de Capoeira? Para serem completos também nestes? Seria justo eles dizerem que não deixaram seu estilo, só estão se preparando para conhecerem o máximo que puderem de cada estilo, sendo capoeiristas mais completos?
- O que aconteceria com os estilos de Capoeira se esta equação se seguisse, daqui 15, 20 anos?
- Estamos possuindo capacidade, paciência e vontade de avaliar nossas ações e ações dos nossos congêneres, de forma a nos posicionarmos de forma clara para a comunidade da Capoeira? Com coragem, independente do nosso posicionamento?
Enfim, são muitas questões e, nos deixariam horas pensando.
A questão é que existem mestres de nosso estilo, Capoeira Angola, participando deste evento. Apoiando ou não o mesmo.
Mestres apoiando, suscitam a discussão da necessidade de sustento financeiro.
Alguns capoeiristas estão conversando nas redes sociais sobre nós precisarmos entender que os mestres também necessitam de sustentar suas famílias e escolas.
Alguns destes mestres, podem, ainda, estar/ter com a cabeça mais aberta do que imaginamos e, entendendo que não há problema para os estilos mais tradicionais (Angola e Regional).
Não haveria problema no posicionamento contra ou a favor. Mas é necessário que quem se posiciona, mantenha sua posição em qualquer lugar onde for.
Afinal, que exemplo esperar de um mestre qualquer, de qualquer estilo, que, com certeza criticaria o evento/competição para seus alunos, em suas escolas e, ao mesmo tempo, vai, apóia e/ou julga no mesmo evento?
E, analisando bem, não seria a primeira vez que acontece. Vamos exercitar nossas mentes, politicamente esquecíveis e memórias curtas...
A questão é que no atual momento histórico, sócio político e cultural em que nossa humanidade vive, não dá mais para aceitar alguém que preconiza e defende uma bandeira e, não age de acordo com o que fala.
Liderança pelo exemplo é a melhor liderança. Seja para qualquer posicionamento.
Mestre Pastinha já dizia metaforicamente que: A Capoeira é para todos, mas nem todos são para a Capoeira.
Necessitamos de lideranças que tenham “culhões” de, pelo menos, agirem com congruência em ações que julgam certas ou erradas, sem conflitos, não importa seu posicionamento.
Logo, nós da FICA-SP não estamos contra quem se posiciona de um lado ou outro. Mas esperamos que haja coerência no discurso das lideranças e, que a comunidade da Capoeira cobre tal comportamento digno e maduro.
Sabemos inclusive que os estilos Angola e Regional são estilos forjados em um movimento sócio político e, podem não defender na totalidade, a idéia da Capoeira Primitiva, que já acontecia anteriormente a “definição” destes dois estilos.
Mas necessitamos pensar em o que vamos defender a partir de agora. Com pensamento crítico.
Pois se nada for defendido, com a justificativa de que nada é real ou autêntico ou de que não conhecemos de fato a história do que já foi... Toda a luta política, desde o mestre Pastinha, facilmente desaparecerá.
Existem diversas artes que simplesmente desapareceram. Vejam por ex o Batuque que teoricamente, precedeu a Luta Regional Baiana. Também a Tiririca, a Pernada Carioca...
Não acredito que nós, enquanto lideranças, não devamos nos posicionar.
Liderança não nos dá posição de conforto. Ao menos, não deveria.
Ficar em cima do muro, é descansar em cima do Status QUO, vendo a vida passar e aceitando o que vier e acontecer com nossas artes e culturas populares.
Lideranças e personalidades não deveriam ficar em cima do muro, com medo de tomar uma “porrada” ou serem linchados pela opinião pública. A força da liderança e reconhecimento que nos foi cedido pelos mais antigos e pela comunidade, deveria ser suficiente para termos nossa opinião formada, seja ela para um lado ou para o outro.
Precisamos analisar as pequenas ações que ocorrem em nosso tempo, avaliando historicamente as mudanças que já existiram e, buscando projetar nossas escolhas e posicionamentos para as próximas gerações, que escolherão defender as características de uma linhagem, de uma tradição ou, abrindo mão, para fazer a Capoeira que bem entenderem, ainda utilizando velhas metáforas, para justificar suas ações.
Poderia ser a morte do pensamento de Capoeira que vocês mesmos, tanto lutaram para construir e manter?
Existe um afrouxamento e flexibilização da moral, que mestre Pastinha preconizou em seus manuscritos?
Nossas ações realizadas atualmente são conscientes ou são apenas um reflexo de desânimo, pelo cansaço de tanto lutar por algo que parece não levar a lugar nenhum?
Líderes, Se posicionem!
Outras pessoas e capoeiristas estão em busca do ou de um caminho.
Capoeiristas, busquem posicionamento das lideranças, porém, não apenas aceitem tudo e qualquer coisa. Busquem capacidade crítica de analisar presente, passado e futuro, buscando fazer valer o que é preciso e, deixando (guardado) o que não pode ser momentaneamente utilizado.
Gostaríamos de saber a opinião dos(as) demais líderes da FICA no Mundo quanto à este assunto.
Obrigado.
Mestre Cobra mansa e Líderes, FICA-SP.