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2017

A Ancestralidade do Fenômeno Capoeira

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 Sendo ancestralidade a particularidade ou o estado do que é ancestral, ou seja, do que se refere aos antepassados ou antecessores, o presente estudo teve por objetivo aprofundar a pesquisa da ancestralidade da capoeira delimitando o estudo a responder as seguintes questões, a saber: Q1. A capoeira é indígena? E, partindo do pressuposto que a capoeira é um fenômeno, tal como o fogo que para acontecer necessita de um combustível, um comburente e o calor, portanto: Q2. quais os elementos essenciais para que aconteça a capoeira?

            O estudo aponta que a capoeira não ocorreu na Bahia e se espalhou para pelo Brasil conforme a crença atual. A capoeira ocorreu no Rio, na Bahia, em Pernambuco, em Belém e em todo lugar onde ocorreu o tráfico negreiro africano. Sim, o primeiro Porto Negreiro foi em São Mateus, sul da Bahia e que hoje faz parte do Estado do Espírito Santo. Secundariamente na região do Porto de Galinhas - PE e posteriormente na região do Cais  do Valongo - RJ.

Uma evidência desse fenômeno foi o povo escravizado de Madagascar e da Ilha Reunião protetorados franceses, onde entre os escravos da colheita do café e da cana praticavam uma dança luta sagrada denominada Moringue. Essa pratica é pai da Ladja e do Damye da Martinica (colônia francesa) e influenciou a capoeira Baiana. Segundo o dossiê africano a África Oriental (Moçambique e Madagascar) participou da formação étnica brasileira. O Moringue guarda imensa similaridade com a capoeira nos movimentos, na sonoridade, nas cantigas, na instrumentação e na ritualização dentre outros.

            Em outra face, as práticas indígenas apesar de não serem elementos essenciais para o aparecimento do fenômeno capoeira, temperaram e caracterizaram essa capoeira. No Rio de Janeiro, a etnia predominante eram os Potiguares. Etnia guerreira que tinha como pratica o Maraná. Uma dança guerreira. Isso deu à capoeira carioca uma característica mais de luta. Por sua vez, a Bahia era composta pelos Tupinambás, etnia guerreira, no recôncavo e norte da Bahia e os Tupiniquins no sul. Antes, porém eram habitados por índios do tronco linguístico Macro-jê, dentre eles os Xingaúnas que foram ocupar o centro oeste do Brasil: Xingu, que por sua vez tinham o grito YIÊ, que significa, pare, escute  e preste atenção! Comprovando que influência vai além.

            Por volta do século XVIII a predominância eram a dos Tupys. Os Tupys talvez tivessem tido como atividade física o Xondaro. Pratica Guarani. Toda tribo Guarani praticava tal atividade tendo papéis distintos: o pajé, o protetor, o lutador, ... essa pratica era considerada sagrada e visava preparar a tribo para caça, guerra, as atividades do dia a dia e a prevenção da saúde. Na dança o guerreiro lutador fica no centro da roda, a tribo anda ritmadamente em círculo, no sentido anti-horário. O guerreiro  no centro aguarda a ida de alguém ou seleciona na roda um e a dança da guerra inicia. O guerreiro fará um ataque que pode ser com corpo ou com algum artefato, o Índio não-guerreiro utilizando tem que se esquivar. Ou seja, alguns são guerreiros, outros realizam o papel do pajé mas todos da tribo tem que saber esquivar.



Pelas características da capoeira baiana parece que essa foi a pratica de matriz indígena que influenciou a capoeira. Entretanto, como já afirmei, na época o sul da Bahia era formado pelos Tupiniquins e o norte os Tupinambás. O Xondaro é uma pratica Guarani Mbya.

            Vale pontuar que disserto aqui sobre a capoeira primitiva. A atual capoeira que jogamos, principalmente no que tange o DF, é a capoeira baiana. Por mais que tenhamos recebido influência de todo Brasil devido a característica de Brasília de receber pessoas de todos os cantos do Brasil, a capoeira candanga veio pelas mãos e pés dos Baianos. Bem como a própria capoeira carioca que recebeu a influência de Arthur Emídio, de Itabuna- BA, em sua periferia, como também no centro sofreu influência do grupo senzala que por sua vez, também buscaram na Bahia ou pelas incursões dos irmãos Flores na Bahia, como também mais tarde, de um jovem mestre de capoeira baian, Mestre Camisa. E assim foi em São Paulo com Mestre Suassuna, Mestre Paulo dos Anjos e outros. Parece que a capoeira primitiva sobreviveu entre os baianos que mantiveram a resistência de sua preservação. A capoeira primitiva carioca também até certo poo, Nos sambas de roda, junto com jogo de pau, mas a versão praticada lá atualmente é a baiana.

O estudo permitiu as seguintes conclusões, a saber:

Q1. A Capoeira é de matriz indígena?

Estudos etnomusicológicos sustentam serem indígenas as raízes da capoeira. (Lussac, 2015). O pesquisador Luiz Carlos Krummenauer Rocha (Rocha, 2002) cita as cartas para Portugal e Espanha dos anais das missões jesuíticas no Brasil:

Cartas; do jesuíta Antônio Gonçalves para os
superiores em Lisboa, em 1735, descreve uma
luta em que os índios praticavam antes de
qualquer conflito, em forma de dois a dois ao
centro usando os braços e as pernas como armas
(Convento de Santo Inácio de Loyola, anais das
missões no Brasil. Tomo III p128) (p.11) em Rocha, 2002).

O jesuíta padre MANOEL DA NÓBREGA descreve
em suas cartas ao seu superior na Espanha
falando dos costumes indígenas, descrevendo a
agilidade dos índios Potiguaras com os pés, mãos
e cabeçadas, transformando-se em arma perigosa.
O “museu do convento dos Jesuítas de Barcelona
- Tomo VII de 1860, em Latim” (p.13)

De acordo com Silva (1995), o mestre de Capoeira Gladson
no livro do padre José de Anchieta, Arte
de gramática da língua mais usada na costa do
Brasil, impressa em Coimbra em 1595 - a segunda
obra do padre e a primeira gramática contendo os
fundamentos da língua tupy, também sendo a segunda
obra dedicada a línguas indígenas na América - há
uma citação que “os índios tupi-guaranis divertiamse
jogando capoeira” (p.10)19. Mestre Gladson
também afirma em sua obra que “o navegador
português Martim Afonso de Souza teria observado
tribos jogando capoeira” (p.10)19. De acordo com as
referências acima, tanto o padre jesuíta como Martim
Afonso de Sousa atestam a Capoeira que observaram
como um jogo, em que o padre ainda descreve
acrescentando que se divertiam, porém não sendo
citada nenhuma relação destes jogos com algum tipo
de música ou luta. Tais relatos possivelmente estariam
descrevendo algum tipo de brincadeira jogada na mata
capoeira e não necessariamente a Capoeira luta, prática
corporal. Mas o fato é que, por estas referências se pode
considerar a existência de algum tipo de expressão
com a presença do elemento jogo sendo praticada na
mata, na capoeira, ou mesmo alguma prática lúdica
nomeada capoeira pelo padre ou mesmo pelos índios.
Mas, do mesmo modo, se deve considerar que se esta
fosse uma prática cultural mais especí! ca, poder-seia
crer que o padre jesuíta, pelo grande tempo de
observação, pelas várias regiões em que passou e devido
ao tipo de relacionamento que manteve com os índios,
não se deteria em fornecer maiores detalhes. A! nal, o
padre foi um dos portugueses que melhor conheceram
o litoral sudeste do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e
Espírito Santo - e ainda esteve brevemente na capitania
da Bahia. Soma-se a isto o fato de sua diferenciação
da maior parte dos demais pela sua cultura erudita
naquele período, compreendido entre 1553, quando
chegou ao Brasil com 19 anos de idade, até o seu
falecimento em 1597. José de Anchieta cultivou
quatro línguas: português, castelhano, latim e tupy, e
produziu importantes obras, as quais ainda merecem
maiores análises para estudos relacionados à Capoeira.
Análises mais profundas sobre tais documentos,
combinadas com outros estudos relativos podem
contribuir de alguma forma sobre o assunto, mas as
leituras super! ciais feitas até agora sobre tais referências
tornam inconclusivas maiores especulações. Outro
ponto é a análise na fonte primária, a qual não foi
possível o acesso durante a elaboração deste estudo e
que pode ser julgada como sendo preponderante para
investigações mais profundas no futuro, aproveitando
os apontamentos desenvolvidos por este trabalho.
Sobre Martim Afonso de Sousa, este foi um nobre
e militar português, nascido entre 1490 e 1500, tendo
falecido em 21 de julho de 1564 ou 1571. Após o
início de sua carreira de homem de mar e guerra, em
1531 percorreu todo o litoral brasileiro por ocasião
da armada que o Rei D. João III enviou ao Brasil
para estabelecer posses na área da bacia do Rio do
Prata, o que não aconteceu devido ao seu naufrágio.
Após este fato retornou à região de São Vicente em
1532, onde estreitou laços com lideranças indígenas
locais e fundou no mesmo ano a primeira vila dos
portugueses nas Américas - a Vila de São Vicente.
Desta viagem, resultou o Diário da navegação de Pero
Lopes de Sousa - irmão de Martim - um documento
histórico ímpar publicado somente no século XIX,
e que merece uma análise em futuros estudos por
concorrer como uma possível fonte para a história da
Capoeira. Posteriormente, Martim Afonso de Sousa
retornou a Lisboa em 1534, já como Capitão-Mor
e donatário de duas capitanias hereditárias. Deste
modo, torna-se possível inferir que é grande a possibilidade
de Martim Afonso de Sousa ter tido contato
com a Capoeira, ou algo semelhante, se esta fosse
parte da cultura indígena e se existisse sua ocorrência
no litoral Sul-Sudeste e talvez no Nordeste naquele
período. E por ser Capitão-Mor, de certo modo
centralizava as informações da Colônia, sendo que
se a Capoeira ou outra expressão semelhante fosse
utilizada como instrumento de defesa, resistência ou
rebelião de alguma forma, provavelmente, ele teceria
maiores detalhes sobre esta prática.
(LUCSSAC, 2015).


Primeiramente vale ressaltar que algumas palavras tinham semânticas distintas na era Brasil colônia. Negro não era quem possui e pele preta, e sim todo aquele que não fosse branco ou tivesse suspeita de não ser um legítimo branco. Talvez para justificar eticamente uma conduta escravocrata o não puro era denominado negro. Eram os negros da terra e os negros da África. Haviam no Brasil pretos índios da terra, como povo Kalunga, a semântica de negro não se equivalia a cor e sim a um “status”. Não era uma palavra substantivada e sim de adjetivada.

A capoeira, sua etimologia provém do indígena e possuía segundo Araujo (2005): 1)  Qualificação de indivíduos que praticavam ou exerciam a luta ou o jogo da Capoeira; 2) Qualificação de toda a sorte de indivíduos malfeitores; 3) Qualificação de indivíduos fugitivos. Segundo Mestre Claudio Danadinho, um dos precursores do grupo Senzala, além de mato ralo, capoeira significava Kaá Poera significava também fuga pelo mato ralo. Ou seja o fato do vocábulo capoeira ter diferentes semânticas, teria contribuído para uma confusão em relação ao significado da prática do jogo-luta e os outros significados da palavra.

Segundo Antônio Moraes da Silva cita a “Luta da Capoeira”, praticada por negros, mestiços e índios no Brasil, em seu livro “Dicionário da Língua  Portuguesa” Lisboa - Typografhia Lacerdina - 1813 Tomo I p.343” (p.12).

 Este dado é importante no que se refere à presença de índios e mestiços em uma referência da Capoeira como luta no período dos primeiros registros desta expressão no Rio de Janeiro. Inclusive, é no ano de 1811, muito próximo da publicação do referido dicionário, em que é possível constatar, no Rio de Janeiro, a primeira evidencia documental da existência da Capoeira jogo-luta.

Conclui que o perfil étnico dos praticantes da luta e do jogo da Capoeira no início do século XIX demonstra que, apesar de ser encontrado um perfil predominantemente de escravos e africanos , não se pode inferir que a gênese desta expressão seria uma cultura e prática de um grupo, de uma etnia ou de uma nação africana específica

Posto assim, a resposta da primeira questão é que pelos dados até hoje pesquisados não se pode inferir a gênese da capoeira nas matrizes indígenas. E fortalecido pelo aparecimento do Moringue, numa época similar ao surgimento da capoeira num protetorado francês (Ilha Reunião e Madagáscar), entre os escravos que disfarçavam sua luta, dança, ritual sagrado dentro das colheitas, neste caso, escravos da colheita da cana de açúcar e de café, que possuíam a cultura do codinome, realizaram uma prática semelhante a capoeira: Moringue, essa arte fortalece o argumento de que a capoeira parece ser um fenômeno que brota onde o negro africano escravizado  se viu na necessidade de compartilhar seus conhecimentos e disfarçar o preparo de uma luta em uma pratica folclórica na ânsia pela libertação.

Q2. quais os elementos essenciais para que aconteça a capoeira?

O negro africano escravo. Talvez em um recorte bem mais delimitado: o negro africano escravo da colheita do algodão e do café

A consequência deste estudo é que novas questões saltam aos olhos do pesquisador, na procura da Ancestralidade do fenômeno capoeira, são elas: Q1) Capoeira carioca foi gerada da soma do N’golo com Maraná? Q2) Capoeira baiana do N’golo com Xondaro? Q3) A capoeira baiana sofreu influências do Moringue? Q4) Quais as matrizes formadoras do Moringue? E Q5) A capoeira baiana é esta que está pelo mundo todo?



Bibliografia

1.     LUSSAC, Ricardo Martins Porto. Especulações acerca das possíveis origens indígenas da capoeira e sobre as contribuições desta matriz cultural no desenvolvimento do jogo-luta. Em Rev Bras Educ Fís Esporte, (São Paulo) Abr-Jun; 29(2):267-78. 2015.

2.     Rocha LCK. Teses que comprovam a brasilidade da capoeira. Rev Prat Capoeira.17:10-3. 2002.

3.     Silva GO. Capoeira do engenho à universidade. 2a ed. São Paulo: o autor; 1995

4.     Araújo PC. Capoeira: um nome - uma origem. Juiz de Fora: Notas & Letras; 2005

5.     Antônio Moraes da Silva. “Dicionário da Língua Portuguesa” Lisboa - Typografhia Lacerdina - 1813 Tomo I p.343” (p.12)14

6.     Brasil. Arquivo Nacional. Códice 403. Vol I. 5 jun. 1811.

"Mestre Brucutú" Brasília-Df